Lembro-me
de meu primeiro namoro. Era um relacionamento romantizado por muitos. Eu não
era feliz, mas achava que precisava estar com alguém para me autoafirmar. Ele
me obrigava a me cuidar, a usar a maquiagem que ele queria, o cabelo como ele
sempre preferiu. E eu obedecia, pois, por muitos anos ouvi “que homem vai querer uma mulher como você?”.
Eu achava que precisava manter o que eu tinha por perto!
Quando
ele levantou a mão para me bater foi o fim. Tive medo de terminar. Se ele quis
me dar um tapa namorando comigo, a pessoa que ele dizia amar, imagine não
estando comigo! Meses se passaram. Criei coragem e terminei. Fui perseguida.
Por noites ele me gritou no portão de madrugada, sem respeitar o fato de que eu
tinha de trabalhar na manhã seguinte. Fui ameaçada.
Passou-se
um tempo e conheci outro cara. O nosso namoro era lindo, como o de um conto de
fadas. Eu era a moça indefesa, que precisava de um homem forte e que me
protegesse. Ele me amou muito, até demais. Sentiu-se meu dono e, por isso, eu
não podia mais falar com pessoas do sexo masculino – mesmo que fosse meu melhor
amigo. Era muito amor envolvido. Ele sabia que eu não conseguiria ninguém
melhor. Eu fui socializada para entender o quão lixo eu era.
Lembro-me
claramente daquela tarde no parque em que, finalmente solteira, vi meu terceiro
namorado pela primeira vez: ele estava ficando com uma garota e olhando para
mim. Tão tola, caí em suas armadilhas. Apaixonei-me. Afinal, eu acreditava que
precisava ter alguém comigo para ser feliz.
Com
o tempo, percebi que um relacionamento não era feito de sorrisos e pensei por
muitas vezes que eu não havia nascido para sentir amor. Foram noites e noites
de choro, afinal, como ele mesmo dizia, ele namorava, mas não recomendava isso a ninguém. Era difícil ver que ele não
dava o mínimo de valor para a mulher que ele tinha ao lado, mas, com o tempo,
percebi que quem precisava ter alguém para ser feliz era ele, não eu. Ele
fez-se dependente de uma mulher e a menosprezava por sê-la.
Sempre
ouvi coisas que me fizeram pensar ser uma Má Namorada. Eu era pouco demais e
eles eram tudo. Eu aceitava tudo o que me rebaixava, pois aprendi que tudo
deveria ser assim. Eu aprendi que ele fazia o que queria e eu deveria aceitar –
senão eu não ficaria com ninguém!
Nunca
me esquecerei de cada noite em claro, de cada lágrima derramada, de todas as
vezes em que fui tida como a errada por exigir ter os mesmos direitos do que os
que passaram por mim. Nunca me esquecerei que fui trocada friamente, mostrando,
assim, que eu era só um pedaço de carne. Eu era só parte do status no facebook. Aquele amor todo que eu senti
em cada relacionamento foi se acabando a cada dia, a cada choro.
No
fim disso tudo, senti-me um lixo, um ser humano que ninguém quer – exatamente como
ouvi a vida inteira que eu era. “Quem vai
querer alguém como você?” era o que eu repetia diariamente em frente ao
espelho. Talvez tenha sido a pior fase de minha vida, pois, antes, tive de
encontrar a aceitação. E, sinceramente, perceber que eu sou realmente incrível
demais para os que passaram por mim foi a pior parte. Um número incontável de
bocas foram beijadas para que eu entendesse que eles não me quiseram no final
das festas, mas no começo delas. Foram muitos “eu não preciso disso” e muitos babacas que encontrei por aí. Mas só
percebi minhas qualidades quase um ano depois de ficar solteira pela última
vez. Foram muitas recaídas. Foram muitas noites me sentindo um nada. Foram
muitas noites lembrando-me de um abuso que eu nem sabia que havia acontecido.
Conforme
este tempo de desapego passou, percebi que minhas qualidades são realmente
boas. Percebi que mereço alguém que me trate não como uma princesa, pois não sou
indefesa, mas como um ser humano assim como ele – sou muito mais Mulan do que
Cinderela! Percebi que uma pessoa que rebaixa o sexo feminino simplesmente por
ser “de mulher”, não merece ter uma ao lado. Percebi que não mereço ouvir todas
as frases que já ouvi em minha vida e que elas são opressoras o suficiente para
terem destruído meu psicológico por anos.
Hoje
sei que sou mais do que aquilo que me foi dito para me rebaixar. Afinal, as
pessoas nunca passaram pelo que passei, não sabem das vezes que voltei chorando
e com as mãos no volante aos 120km/h. Elas nunca saberão. Elas nunca saberão
como me senti quando o homem que eu dizia ser o amor de minha vida me empurrou
de uma escada quando se dizia bêbado. E muito menos saberão das vezes que ouvi
de minha mãe que ela tem vergonha por eu ser como sou hoje.
Sinto
que sou uma mulher completa exatamente pelo fato de ter aguentado tudo isso e
por ainda assim estar de cabeça erguida, dizendo, aqui, que espero que as manas
não demorem tanto quanto demorei para encontrar amigas que me mostrassem que
minha socialização de estar feliz por estar com alguém é totalmente errada. Afinal,
eu não preciso de ninguém para estar bem.
Pois
é, futuro rapaz que aparecerá um dia em minha vida: eu era isso, toda ingênua,
frágil e indefesa. Fui humilhada e sofri todo tipo de relacionamento abusivo.
Saiba que não aceito mais qualquer um em minha vida e, se você aparecer,
entenda que você foi o melhor que eu conheci.