domingo, 5 de agosto de 2018

É MUITO FÁCIL QUANDO NÃO É COM VOCÊ.

Depois de uma noite completamente insana regada a muita bebedeira e, agora, com as mãos tremendo de tanta ressaca, ainda assim, pior mesmo é a ressaca moral. Não, eu não me arrependo de nada. Não estou chateada por coisas que fiz ou falei. Estou chateada por, mesmo absurdamente bêbada, ainda enxergar detalhes que eu não queria enxergar.
Falemos, então, de machismo nos detalhes. Sim, eles existem em detalhes que algumas pessoas sequer percebem. Às vezes não está em socos na nossa cara e xingamentos. Muitas vezes um apoio já é o suficiente para sentirmos que podemos lutar contra essa merda toda. Mas a falta de simetria não vai acabar só porque você acha que não é legal.
Vocês sabem como é a sensação de ser estuprada, ler uma reportagem de alguém que teve um caso parecido com o seu e depois ouvir que isso não é tão importante quanto um ideal político porque a pessoa acha que tem coisas mais importantes para serem combatidas? Dói. Você chora quando percebe que casos como o seu são deslegitimados e, quem acoberta, desculpa falar, mas está acobertando algo grave.
"Ah, mas e a pobreza do mundo?", sério, você já sentiu a sensação de acordar com dor na vagina e no ânus e não saber o que aconteceu? Não, né? É por isso que pra você é ok. Eu até tento entender alguém que ignora um caso assim. Só estando na pele pra saber. É muito fácil falar de ideal quando não foi você quem acordou com os braços roxos, com dores no corpo e com a sensação de estar sozinha. É muito fácil estar engajado em projetos e não lembrar que a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. É muito fácil quando você nunca foi estuprada. É muito fácil...
E entornemos mais uma garrafa depois de derrubar uma lágrima escrevendo isso...

Todas as vezes que demonstrei ter sentimentos, as pessoas se aproveitaram de mim. Já escrevi aqui algumas vezes. Já falei de estupro, de relacionamentos abusivos e de toda socialização que tive. Então não é simples você ser vista como "alguém que não quer demonstrar estar fraca porque não gosta". Ouço diariamente que sou um exemplo para muitas mulheres e quando a gente é um modelo de força, tem de lembrar de quem te segue. É com garra que se enfrenta o patriarcado, não pode ser com choro. E repito: é muito fácil quando você não sofre o tempo inteiro por ser mulher. Ou você acha que eu encho a cara de álcool porque é legal?
Mas, mesmo ainda zonza, enxerguei ontem que um cara tem tanto medo de enfrentar os amigos machistas que prefere dizer que eu não sei o que é machismo, ele sim. Ele, um homem, branco, que os pais bancam a vida inteira, que usa o tempo vago alimentando o tráfico de entorpecentes. Ele sabe o que é machismo. Eu, mulher, que fui estuprada, que apanhei de namorado, que sou chamada de puta porque digo "não" pra um cara, eu não sei. Seria o mesmo que eu, branca, dizer que sei o que é racismo para uma mulher negra. Não tem sentido algum. Ela sabe o que é racismo, não eu. Assim como uma mulher sabe o que é machismo. 
Diante de todo o mansplaining e manterrupting da noite, ainda não contei o principal: vocês acham que isso foi o pior? Não, meus queridos. O pior é saber que isso acontece o tempo inteiro. E além de eu ter de aguentar isso tudo, eu não posso surtar. Sempre vai ter alguém se espelhando em mim! E eu não posso fazer as coisas só porque eu acho legal. Eu preciso sempre viver sabendo que alguém pode chegar a qualquer momento e me chamar de porca, imunda, obesa porque eu sou feminista! E mesmo aguentando isso tudo, ainda preciso aguentar gente ignorando estupro porque o ideal é diferente, porque não pode cobrar o coleguinha na rodinha dos brother.
É MUITO FÁCIL QUANDO NÃO É COM VOCÊ!

Deixo, então, aqui, uma lágrima, um texto e um desabafo. Porque não tá sendo fácil.



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